Aluisio Machado: “Meu partido é o partido alto”, por Augusto Diniz

Written by on 4 de abril de 2018

por Augusto Diniz

Nesses tempos em que alguns sambistas, principalmente os que estão na batalha por novos espaços e público, lançam músicas em seus trabalhos com tom de protesto por conta do momento em que vivemos, destaca-se que no passado recente isso já ocorria no meio do samba.

Aluisio Machado, que em 13 de abril completa 79 anos, chegou a fazer duas grandes composições, de forma muito peculiar, chamando à atenção para a repressão.

Uma é a música “Efeitos da evolução”, em que num determinado trecho ele cita: “Se o cristo aqui voltar / Com a intenção de nos salvar / Será preso, algemado / E nem vai poder falar”.

Essa música foi feita depois de o sambista ser levado para depor na Polícia do Exército no auge da Ditadura Militar. Aluisio se apresentava na noite e cantava, na hora em que foi detido para averiguação, uma música de saudação a Cristo, de nenhum cunho político, mas entendido pelos militares como subversiva.

“Machucado”, o sambista compôs “Efeitos da evolução”. Aluisio Machado narra essa história num documentário dedicado a ele chamado “O Famoso” (2007) – na verdade, trata-se de uma entrevista na mesa de bar numa calçada, em frente onde vive, o Retiro dos Artistas, em Jacarepaguá, no Rio, em meio a tragos de cigarro e cerveja, e, claro, roda de samba com suas composições – o bate-papo do documentário é entremeado com um show seu gravado.

Num segundo momento, após apresentar a música “Efeitos da evolução” (que depois foi gravada por Martinho da Vila), ele conta que sua composição mais conhecida, a “Minha filosofia”, é também um protesto, só que de forma mais sútil. Nela, Aluisio diz: “Relógio que atrasa não adianta / E o remédio que cura / Também pode matar / Como água demais mata a planta”.

Ambas as músicas são letra e melodia de Aluisio Machado. Uma pena que sua obra esteja registrada apenas em um disco solo, o “Apesar dos pesares”, ainda na época do LP. Mas ele teve composições gravadas pelos principais intérpretes de samba no País.

O sambista é natural de Campos de Goytacazes, no Norte Fluminense. Não é à toa que Aluisio Machado tem um toque de protesto em sua música. Ele começou a carreira cantando no Teatro Opinião, na década de 1960, símbolo do movimento cultural de oposição.

Ligado ao Império Serrano desde sempre, compôs e venceu vários sambas na agremiação. O mais conhecido é um clássico do samba-enredo: “Bumbum Praticumbum Prugurundum”, que fez com outro partideiro: Beto Sem Braço.

De acordo com Aluisio Machado, este samba também tem crítica, notadamente a forma com que os desfiles as escolas se tornaram, explícito no trecho “super escolas de samba S/A”.

Perguntado pela polícia quando detido nos tempos de chumbo qual era o seu partido, não titubeou: “Meu partido é o partido alto”, o que é a mais pura verdade, que sempre foi marcado pela expressão de resistência.

 Fonte: Jornal GGN.

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